sábado, 15 de maio de 2010

A mãe do goleiro

A mãe do juiz todo mundo já sabe o que é. Mas a mãe do goleiro, estou aprendendo a saber - e a ser.
Todo mundo torce por gols. A mãe do goleiro torce pelo não gol, talvez uma atitude anti-esportiva.
Quando o time ganha, o time ganha. Quando perde, o goleiro levou os gols. Mas a mãe, vê que ele 'quase' pegou, funciona em lógica diferente. Só ela e o filho.


Quando o time marca, o goleiro comemora sozinho. Quando o time toma, o time sofre junto e o goleiro sofre sozinho. Sozinho em campo. Lá fora, tem uma mãe sofrendo horrores, sabendo certinho o que ele tentou e não conseguiu, por vezes sendo lembrada, como o é a mãe do juiz.



Dizem que o perna-de-pau é quem fica no gol. Pode ser, muitas vezes é. A mãe vê além: as mãos têm que ser de anjo, o braço de elástico ou de polvo. O salto de gato, o voo do pássaro, a coragem do soldado, a luz no final do túnel, o último homem, a muralha, um herói. Buscando no fundo da rede ou frustrando o adversário, um herói. Afinal, ninguém, só ele, aceita ser o telhado de vidro. E isso, exposição ao risco, é coisa pra corajoso, pra destemido.

E faz espetáculo. Represa a bola no chão, salta na vertical, na horizontal, desdobra-se, retorce. Defende de mãos, pés, cabeça, até bunda se precisar. Existem defesas milagrosas, espetaculares, lindas, mas não existem defesas feias. É o caso em que função importa mais que estética, que os meios justificam os fins.




A mãe do juiz de hoje não sei quem é, creio ser uma boa senhorinha, congratulo-me com ela. Ele, porém, sei quem é: é o cara que anulou um golaço, marcou um pênalti inexistente pro adversário e teve que ver a reação do nosso time, com dois gols. Meu goleiro quase pegou o pênalti, pulou no lugar certo. Foi o único gol que tomou, no campeonato inteiro.
Vai dormir, seu juiz, com o nome da pobre senhora sua mãe ecooando na orelha, enlameado pela sua atuação.
Eu, seu juiz, deito com o grito de "é campeão! é campeão!" e com o troféu de goleiro menos vazado na estante, pelo segundo ano consecutivo.
Ninguém lembra de mim, mas lembra do senhor e do goleirão, de 1m40cm e 10 anos. Com os devidos pedidos de perdão à senhora sua mãe e também à sua coragem de expor-se e de ser teto de vidro também. Funções ingratas: juiz, goleiro e mãe de ambos. Dela mais. Pelo menos hoje.

Terei que postar fotos depois. Hoje foi a final da Segunda Copa Idevaldo Claudino de futebol de base aqui na cidade e meu filhote Vinícius, o goleiro da crônica, jogou, na categoria Fraldinha.
Repetiu-se a final do ano passado, na qual eles tinham ficado em segundo lugar e o Vini tinha sido ainda assim o menos vazado.
Ele tá uma felicidade que só. Mas procuro ensinar: que a fé dele ajudou, que a equipe ajudou, que o compromisso dele com o grupo ajudou, que a força de vontade e talento ajudaram e que, para ele ganhar, alguém perdeu e está triste. Não sei se isso é correto, mas é o que diz meu coração: comemore, mas pense que alguém não está comemorando, então Deus escolheu você. Agradeça e ore pelo adversário, tente sofrer - ou ao menos entender - a dor dele. Põe fel neste mel. E lambuze-se, Vinícius. Te amo!

6 comentários:

Rose disse...

Oi Ana, bom dia querida!
Fiquei muito feliz quando vi sua visita lá no Aguas Tranquilas, primeira visitinha das amigas de looongo tempo, rs...também relutei para fazer o blog, mais como vc disse, tudo tem seu tempo, havia só um desejo até o dia em que o Senhor falou no meu íntimo é hoje!
E não me arrepemdo, só quando vc começar a blogar para Ele para entender o que estou sentindo, viramos uma especie de web missionário, rss.
Amei o texto, muito engraçado, mais é verdade, rs. O meu é atacante, hehehe, só fala e pensa em futebol, já jogou em escolinha e agora com 14 quer voltar, quer virar profissional, rs, deixo tudo nas mãos de Deus e pego no pé para estudar direitinho e deixar o futebol em segundo plano.
Beijos e abençoado dia.

Milena disse...

Ana,sei bem o que é ter filho no futebol.Não se espante em sofrer porque seu filho tomou um gol e o meu que TEM que marcar?Pressões a parte,fico feliz pela sua e a felicidade dele e vale lembrar em tempo:a única e incontestável convocação do Dunga é o Júlio Cesar.Ponto para vocês.
Bjs e bom domingo.

Eliene Vila Nova disse...

Oi amiga
que saudades
e que texto lindo, eu teentendo, mas porque sou irmã de goleiro,rsrsrs.
meu bomrido não se liga em futebol, mas se um dia tiver um menino quero que ele jogue para que eu possa acompanhar nos campeonatos, pode ser outro esporte, o importante é sempre estar presente.
parabéns ao Vini pelo campeonato e pela linda mãe que ele tem.
por isso que te adoro.
beijos
beijos
ah essa semana estarei online
te espero

Nana disse...

Amiga, se eu te contar que a minha vida está que nem barata tonta depois que levou um jato de veneno, tu acredita??
Nem tempo estou tendo para postar no Manga... juro, estou sentada aqui e não querendo ir trabalhar.
bjss

Laély disse...

Ana, que delícia de texto! Comovente, até! O bom cronista faz disso seu trabalho, não é? Transforma fel, em mel, muitas vezes. E olha, que eu nem gosto de futebol!! Dá vontade de reproduzi-lo e espalhar, para que outros mais tenham esse mesmo prazer.
Sua conclusão, tão generosa: tentando ensinar, no meio da emoção toda, que uma vitória dessa é para uma criança, levando-o a sentir como o adversário, algo difícil.
Meu menino do meio também é Vinícius, mas nenhum deles gosta muito de futebol.
Meu caçula chegou à radicalidade de informar que vai torcer pela Inglaterra, pois considera essa paixão por futebol, um exagero, pode?! rsrs
Um abraço grande!
( Também tá mudado, por aqui...rsrs)

simplesmente....fascinante disse...

Adorei ler essa cronica "A mãe do Goleiro ". Confesso que nunca pensei na mãe do goleiro dessa maneira. Sua escrita é muuuuuito boa mesmo. Bem ..parabéns pela vitória , para o time, para o goleiro e principalmente pra mãe do goleiro.
abração
marilene