quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Casa em transe








Querida, "downlook" no visual da sala... Alguma coisa
tá fora da ordem...


Não sei quando esta fase, "desculpe o transtorno estamos em obras" vai acabar.
Acho que tudo vale a pena quando a alma não é pequena, no caso, a bagunça, o investimento - tudo era apenas uma brincadeira e foi crescendo, crescendo....- e todas as expectativas frustradas ou atendidas....
Mas tenho fé de que, até o Natal, vou poder me locomover sem pisar no cimento, sem trombar no pedreiro - este com o bumbum virado pra lua aí da foto - e sem arrastar móvel pra lá e pra cá.


Sou bem resistente: acho que não tive sequer um dia de estresse total por causa do transe geral pelo qual passa minha casa, minha vida. Talvez minha profissão, que proporciona conviver com realidades tão múltiplas, ajude. Olho para o lado e vejo... tem muita coisa fora da ordem...








Como este quintal. Vai passar o Natal, mas provavelmente ainda terei esta galera acabando de acabar com o que um dia foi um gramado verdinho. Grama esmeralda não aguenta pisoteio, quanto mais tantos goleadores... aproveitarei as férias para plantar uma espécie mais resistente. Se é que algo resiste à energia da infância! Meninos, bicicletas de perna pra cima, boladas no portão, uma grama mortinha da silva... alguma coisa tá fora da ordem... o quintal em transe... ou nem tanto...





Principalmente quando chega ao banheiro um sorriso destes. Sujo, sujo, sujo... Porque se sujar faz bem. Encarde o azulejo, as buchas vegetais e faz pose para a foto como se fosse Rogério Ceni, depois de defender dois pênaltis e marcar um gol de falta. Se não foi isso, o que importa, o dia esteve perfeito, nada fora da ordem. As bikes jogadas, a grama assassinada e um bando de moleques cansados e satisfeitos porque cumpriram seu "dever" do dia: ser feliz, em qualquer casa, com qualquer ordem.






Quintal é lugar de crianças, brincar, esperar o que o mundo adulto concede. Olhamos para elas e nem podemos supor os dramas, emoções, amores que vivem ou viverão.




Até o serviço da mãe é brincadeira... Ah, os quintais! Quantos aprendizados! Que menino não quer um na sua vida! Terra, frutas, segurança, espaço lúdico, escola de emoções. Espera inquieta...Templo de descanso para os idosos. Contemplação, espera quieta.


Depois do meu quintal, as fotos são do quintal da Vila Vicentina, um quintal de trânsito, espaço aqui de Três Lagoas (MS) que abriga famílias sem condições de ter uma moradia, gente que ganha casa, auxílio para arrumar emprego, alimentos, um quintal, uma vizinhança e tempo para se reerguer.






Gente como Antônio, que vive sozinho. Sozinho entre quatro paredes, porque, na prática, vive rodeado dos outros moradores. Hospitaleiro, puxa papo, serve um café recém-coado para a repórter, ajuda a marcar consultas e transportar os que estão debilitados. Antônio pilota lá suas panelas, seu tanque, suas vassouras, seus temperos, seus mantimentos. Põe neste pedaço de chão a sua ordem, vejam só sua prateleira. Sorri da sorte de ter onde morar. De ter sua casinha a princípio provisória, porém carregada de alma.



Como a casa de Aline, 23 anos, quatro filhos, um deles com 11 anos. Teve tempo de fazer as contas! 23 - 11 = 12. Isso mesmo: ela teve seu primeiro bebê aos 12, vítima de um adulto, como inúmeras meninas por aí. Na pequena varandinha, espaço existe para um banco de madeira, plantas bem cuidadas e estas cores , a composição do lilás com verde, transpirações de uma harmonia pessoal e familiar que ela não tinha antes de chegar à Vila Vicentina.








E aqui está o seo Dirceu, o presidente do residencial. Administra e se vira nos 30 para arrumar dinheiro, alimento, medicamentos e confortos e modernidades que ele quer que as 19 crianças da vila tenham, como têm seus 4 filhos. Aposentado, tá lá todo dia, ele e a esposa, Ana Maria, que vem à tarde, depois de fazer todo o serviço de sua própria casa. Mandou instalar antena parabólica, este quiosque onde está sentado, com uma tevezona pra que todos assistam, arrumou máquinas de costura para as mulheres cuidarem da roupa e de algum tapetinho, pôs um computador com internet na sala de reuniões, para os meninos brincarem, está gramando o quintal, busca móveis e roupas em donativos para mobiliar e vestir os lares desta gente que está em trânsito ali, até que a vida retome seu curso. Aline, por exemplo, muda-se em dezembro, para uma casinha popular que ganhou da prefeitura, depois de quatro anos na vila. Vai sentir saudades, mas sabe que algum dia encontrou um lugar que ajudou a colocar sua vida na ordem. Vou parar para não se demitida. Estas histórias devem ir para a revista Criativa Gente e estou aqui, não resisti, contanto em primeira mão pra nós, amantes das nossas casas.





Ok. Nada está fora da ordem na minha sala....












4 comentários:

Casa da Lis disse...

Que trabalho lindo desse senhor..
beijos

Lúcia disse...

Como é maravilhoso saber que existem pessoas que não olham somente para o próprio umbigo, que sabem que não são o centro do universo.
Como é importante quando vemos pessoas que tem uma vida muito mais difícil que a nossa e que, se bobear, são mais felizes que nós que vemos dificuldade em tudo.
Como é vital aprendermos que as pessoas valem mais que as coisas, e que o sorriso dos pequeninos vale mais do que a grama esmeralda.
Beijão.

Isabel Cristina disse...

OI Ana, adorei saber a história de cada uma destas pessoas, muito emocionante a história da Aline, tão nova, quatro filhos e com um sorriso doce! Lógico que reparei na prateleira do Sr. Antônio (acho que esse o nome dele) que bonitinho!! São pessoas lindas, com sonhos como todos nós, e principalmente, com pessoas ao redor com vontade de ajudar! Beijos

Margaret disse...

Menina, nao tinha visto este post...
linda historia, e quero agradecer por vc mostrar pra gente antes da revista...
adorei...